Hades

hades5.1

Por L. Orleander

“Não me lembrava de seus olhos ou pelo menos de sua cor mas, os sabia gentis e confiáveis até…
Sentado em um trono, com suas vestes negras, estava ele, me esperando…
Governando os dias que me faltavam.
eu podia não saber quem ou o que ele era, mas de mim, ele sabia tudo…”

A pia se encheu assim que o primeiro passo se deu…

O líquido viscosos e prata, retinia frio, feito mágica enquanto ele descia os degraus empoeirados com lentidão e toda paciência do mundo parecia acompanha – lo.

Candelabros se acendiam e chamas esverdeadas com pequenos focos azuis dançavam preguiçosamente iluminando tudo ao redor.

O salão ganhava vida conforme ele adentrava o recinto, a música suave e melancólica parecia penetrar a pele causando arrepios e o perfume de gardênias e damas da noite preenchiam o lugar, trazendo a sensação de sono e torpor.

Pequenas mesas negras feito o ébano serviam de adorno ao salão, tapeçarias penduradas pelas paredes, continham bordados finos em tramas que contavam as histórias através do tempo.

Em fios metálicos e reluzentes se desenhavam a queda dos titãs e a ascensão dos deuses. A criação dos homem e a queda dos deuses.

Eu estava estupefata e a admiração me tomava a face. O chão abriu -se e pude ouvir o clamor de vozes em agonia, enquanto o trono de pedra se erguia para assentar o seu senhor.

Ele se aproximava e a máscara que lhe cobria a face, era feita de algum metal estranho e escuro como o grafite, um brilho opaco e sem vida acompanhava a feição infantil ali entalhada, sem expressão.

Nem alegre, nem triste, apenas traços leves de um rosto. Uma reverência delicada foi dirigida á mim e fiquei paralisada.

Eu não sabia como havia chegado até ali ou se tudo não passava de um sonho.

– Bem vinda! – a voz ecoou em minha mente como uma canção de ninar gentil e convidativa, não havia mais gritos ou clamores, éramos apenas nós dois agora.

Nós, um salão gigantesco e a estranha pia que parecia nunca se encher.

A mão pálida, quase translucida parou no ar e apontou para mim e em seguida para a pia, senti em meu íntimo um chamado forte, que me dizia para ir e seguir a ordem em silêncio.

Caminhei cautelosa e parei diante do objeto, não poderia ter me surpreendido mais ao olhar para dentro e ver o meu reflexo sorrir, para em seguida mudar suas feições sem que eu me movesse e me mostrar uma face cruel, outra triste e por fim quedar – se sem expressão alguma, apenas um rosto vazio e sem vida, assim como a máscara que ele usava.

A imagem sumiu e senti uma onda de medo se apoderar de mim, quis correr e ao me virar, deparei – me com a campina silenciosa em meio a escuridão, coberta apenas por uma névoa espessa.

O riso de crianças tornou – se meu guia, assim como outras vozes. Das sombras, duas meninas corriam sorridentes de mãos dadas em minha direção. Tentei para – lás para saber onde estavam ou o que faziam ali mas, parei antes mesmo de toca – lás, as orbes vazias me causaram espanto e então notei os vestidos sujos em frangalhos. Em suas gargantas, um corte profundo e o sangue seco nas golas dos vestidos. Veio o frio e em seguida, senti quando as mãos enlaçadas atravessaram meu corpo.

Como elas, outros se aproximavam como se marchassem em uma procissão.

Alguns sorriam, brindavam, dançavam, beijavam – se como se aquilo fosse o último ato. Só então entendi: estavam todos mortos.

Corri para longe, o suor escorrendo frio por minha fronte, eu não poderia estar morta. Ou poderia? Eu não me lembrava como chegará ali.

Passei a mão por meu corpo, tateando com atenção em busca de ferimentos  que confirmassem minhas suspeitas mas, nada!

As pessoas não paravam de aparecer e decidi correr na direção oposta, no entanto paredes apareceram e não me deixaram voltar.

– Você não pode voltar atrás… – me disse uma mulher trajando um vestido do século XIX e jóias desgastadas pelo tempo. – Eu já tentei. Nunca consigo passar…

– E por que não caminha pra frente? – perguntei com medo da resposta.

– Por que adiante, me aguarda o fim.

Aquilo me deixou apavorada, eu estava entre espectros  e não estava morta, para onde eu deveria ir?

O chão se abriu e para meu desespero, me engoliu, arrastando – me para um abismo, puxando – me brutalmente. Tentei gritar e a voz não veio, tentei me agarrar em algo, mas as paredes pareciam lisas e muito frias e á cada tentativa, a “força” que impulsionava minha queda, agia impiedosa.

Tudo parou e caí em um salão oval branco leite, onde portas de vários estilos, estavam. Haviam cores distintas e odores como o de carne de animal em putrefação, também haviam flores e cheiro de pães quentes. Portas verdes, vermelhas, enferrujadas ou sangrando… Estavam todas lá, deixando aquele salão impecavelmente branco, feio e com aparência de sujo.

Diante de mim, novamente a pia apareceu e consigo um molho de chaves, sem números ou marcas, apenas chaves envelhecidas pelo tempo e dentro de mim era como se eu as conhecesse de algum lugar, mas não sabia de onde.

Uma á uma elas me chamavam, a curiosidade me impelia e o medo gritava em cada célula do meu corpo.

Dei o primeiro passo e me senti tremer, porém não recuei. A respiração ficou ofegante e meus pulmões pareciam que iam explodir, o coração acelerava e eu temia o pior.

Caminhei lentamente até a primeira porta. Tons pastéis, pequenas rosas desenhadas e espinhos que deixavam escorrer sangue, me esperavam, eu não havia tocado a maçaneta e já sentia a dor que dali, emanava.

Girei a chave e a porta cedeu imediatamente…

Meu velho quarto estava diante de meus olhos, as paredes manchadas de bolor esverdeado e o odor pungente de mofo. Um tapete marrom, manchado pelos pequenos pontos vermelhos de sangue, a cena apareceu diante de mim como se eu a vivesse novamente. Meus pais se atracavam em uma briga feroz, enquanto ali ao lado uma criança soluçava e pedia que eles parassem. Me reconheci nos olhos súplices e inchados.

Tentei voltar, mas a porta se fora, eu não queria ver, não queria sentir tudo aquilo, outra vez. Foi então que a cena mudou e tudo caiu na escuridão.

Meu rosto petrificado em uma máscara de desespero reconheceu a infância dolorida e amarga.

Veio então o barulho de um portão laranja devorado pela ferrugem para me arrancar dos devaneios e me lançou ao terror.

Mãos ásperas percorriam meu corpo, enquanto eu tentava me desvencilhar do abraço pervertido. A barba grossa cheirava a cachaça barata e um velho imbecil que para todos era uma boa pessoa, pra mim era o monstro embaixo da cama que eu teria esfaqueado se tivesse a oportunidade. Meus pais não tinham culpa, não perceberam e eu senti novamente o medo e a vergonha de ser a criança e contar.

A lembrança me causava náuseas, ódio e repudio, meu corpo maculado pela luxúria de um ser podre. A imagem evanesceu e caí de joelhos aos prantos, arrancando meus cabelos.

O azulejo branco e frio estava embaixo de mim novamente, o molho de chaves jogado á distância, as lagrimas lavando meu rosto e o som de água gotejando me arrastava para longe.

Outra porta se abria sem que eu precisasse me mover de onde estava.

A criatura fétida e suja se arrastava da lama, para fora. Os gritos atrás dela pareciam machuca – lá ainda mais.

A roupa eram trapos, os pulsos cortados ainda sangravam, os olhos injetados estavam vazios, sem qualquer resquício de esperança ou do que fora um pedido de socorro. Eu desejei a morte, desejei fugir, mas o chão me prendia esperando que ela me alcançasse. Os soluços vinham de lugares que eu desconhecia, de pessoas que também sofriam.

O murmurio lamentoso de um pântano, um homem de olhos vermelhos e dentes pontiagudos sorrias satisfeito, a pele se desprendia dos ossos mostrando a podridão sob a mesma, marcada e purulenta, a língua viperina saboreando a dor que assistia. Lembranças de um lugar aterrador… Lembranças de um pós – morte…

A criatura alcançou – me finalmente e tocou – me a face, em meio a toda sujeira uma lágrima escorreu e deixou marcado por onde passou: Eu morrerá!

Podia sentir os vermes a devorarem ferozes minha carne no esquife de madeira, enquanto eu gritava e não conseguia ouvir o som de minha voz.

O salão branco voltou á mim e minha respiração ofegante agora fazia ecos no lugar inteiro, enquanto meu coração parecia querer saltar do peito.

O molho de chaves reluziu, meus olhos se arregalaram e um comodo todo em vermelho, com peças em veludo negro, música diáfana e odores de charutos e incensos se fez presente diante de mim.

Uma moça sensualizava uma dança no centro do que parecia ser um bordel, mirando á todos com volúpia. Os homens estavam hipnotizados e lançavam notas de valor alto em direção a mesma, enquanto negociavam com uma cortesã velha e de maquiagem exagerada a noite a seguir junto á ela.

De longe gemidos em alcovas escondidas apenas por cortinas se fazia ouvir, como se fossem parte da melodia.

Eu me via nos olhos dela , quantos homens me devorariam a carne?

A carne de uma cortesã que envelheceria pobre, sem dentes, sem luxos, pedinte e morando nas ruas de uma Paris abandonada e decadente…

Ele me esperava quando voltei, não sorria e também não me olhou como quem condena, estendeu – me a mão e me ajudou a levantar.

Eu era um monstro, me senti envergonhada e me perguntei o motivo de ser levada a ver tudo aquilo, toda minha sujeira, meus medos e desesperanças.

Toquei – lhe a ponta dos dedos e de imediato me vi diante da pia, um espelho, mirava a mim mesma.

Ele sorriu, voltou ao trono e colocou a máscara ao lado do trono, sorriu, acenou – me com a cabeça e se despediu.

O sorriso era uma linha fina na face pálida e os olhos bicolor me causaram espanto, de um lado do rosto um ancião de olhos muito azul me fitava com carinho e candura, do outro, a face jovem de olhos quase prateados me olhava desafiadora, encorajando uma guerreira que dormia dentro de mim. Uma beleza desmedida em duas idades distintas em uma mesma face.

– Mas quem é você? – perguntei ainda presa em um misto de espanto e admiração. – E o que quer de mim?

Eu sou aquele chamado de ladrão, aquele que as castas repudiam e ofendem. Sou a dor e a misericórdia da última hora. Sou aquele que governa as janelas da almas e os teus sonhos. Aquele a quem chamam de sombrio e me temem por que preferem viver cegos a enfrentar o seu “eu’ desconhecido. Sou aquele que governa do Lete ao Estige. Do Tártaro ao Elísios. Eu sou teu pai, pois te escolhi para filha. E ainda que não me conheças, me encontrastes. Eu sou Hades…

Minha alma se partiu em um zilhão de pedaços e me senti oca.

O líquido prata escorreu até meus pés, tomou posse de mim e não pude me mexer. A sensação era de frio e calor.

Me causavam arrepios e foi então que me senti queimar de dentro pra fora. O sussurro da morte cantou suave a ficou alojado em meu corpo.

O ar gélido que o acompanhava tinha odores de lilases e jasmins.

Eu me rendi, meu passado já não me fazia chorar encolhida sobre a água quente do chuveiro e nem mesmo me assombrava.

O medo já não mais existia e tudo fez sentido.

Eu morreria… Como todos os outros…

Mas morte já não me assustava e seu silêncio era – me cantiga de ninar. Eu não temia mais o inferno e nem mesmo queimar sobre suas labaredas.

Quando se encontra aquele que governa a última centelha de sua existência, nada mais importa e tudo faz sentido…

 

FIM…

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