Morada dos Olhos Tristes

mot2

Por L. Orleander

“Come feed the rain
‘Cause I’m thirsty for your love
Dancing underneath the skies of lust
Yeah feed the rain
‘Cause without your love, my life
Ain’t nothing but this carnival of rust…”¹

“Nina…”

Era esse o nome a ser temido… O nome sussurrado nos últimos instantes de vida de um rapaz com pouco mais de 20 anos, preso em uma cama de lençóis pútridos e cheirando a carniça, restos de animais ou algo morto á dias.

O nome morreu nos lábios quase sem vida, enquanto as órbitas vidradas registravam sua última imagem antes de serem arrancadas meticulosamente pela mão macia de toque suave.

O prazer cintilou no brilho de seu olhar instantaneamente, a frieza de ver as próprias mãos manchadas de sangue não lhe causava qualquer espanto, mas nada daquilo importava desde que a nova aquisição fizesse a bela moça de cabelos negros feito o ébano, sorrir…

if1u2e

A primeira coisa que me disseram: ” Ela vendeu a alma ao Diabo!“…

A segunda: ” Ela está possuída!“.

Eu realmente gostaria de dizer que ambas as afirmações estão corretas, me livraria de anos na cadeia e me deixaria em observação em um hospital psiquiátrico qualquer mas, infelizmente não!

Eu realmente o matei por que queria, por que a dor que habitava dentro de mim era real e tinha voz própria. Aqueles olhos não poderiam ser de outra pessoa se não meus, eles clamavam para terem uma dona e eu poderia ser essa dona sem sombras de dúvidas…

As pessoas não entendem como é viver em um mundo distorcido onde o belo está apenas na pele, no corpo, na aparência, eu queria almas e almas são bem diferentes, elas me inspiravam, me davam força e alimentavam minhas esperanças, mas elas nunca brilhavam depois de tiradas do rosto e isso me entristecia.

Almas cantam quando eu as encontro, respiram um ar diferente, trazem sorrisos sinceros e sensações indescritíveis.

Mas Yan… Yan, era diferente…

Era a tormenta dos meus dias nublados, aqueles olhos queimavam em mim de uma maneira fantástica e eu nunca imaginei que alguém como ele poderia olhar, para alguém como eu.

Mas, olhou… Em uma bela tarde de Verão, o encontrei em um parque, tocando uma música que me era muito conhecida, acabei me aproximando sem perceber e a conversa fluiu como se eu o conhecesse há anos.

E cada instante com ele era único, as conversas evoluíram e vieram nossos encontros. Lembro que as mãos dele eram, quentes. Percorriam minha cintura, subindo minha roupa, despindo a minha timidez, coisa que homem nenhum fizera, pelo menos não com aquela delicadeza e aquela entrega, intensa e maravilhosa.

Os lábios doces me beijavam como se o mundo fosse acabar amanhã e tudo fazia sentido, minha alma se ligava á dele e dentro de uma redoma, eu era possuída pelo fogo que queima por dentro sem ferir, mas que fazia cada terminação nervosa minha ficar desesperada por mais, cada investida era um gemido de prazer insano, difícil de controlar e cada sussurro quando ele me chamava de minha me levava á outra dimensão. Eu estava feliz, mas os “outros” olhavam da prateleira, invejosos, pedindo um novo companheiro. Aquilo doía, mas eu não estava pronta para abrir mão daqueles momentos.

Yan era perfeito em cada detalhe e todas as vezes que eu me deitava sobre ele, aquela alma berrava meu nome como a oitava sinfonia de Beethoven… Me queria, me invocava…

Não ia dar certo e também não ia durar por muito tempo aquela intensidade nossa. Eu sentia…

“Ela” estava vindo e sempre que ela vinha ela desejava e eu não sabia dizer não. E aqueles olhos…

Despertavam a sede de querer, de precisar… Eles eram tão lindos e cheios de vida, uma alma totalmente reluzente, não havia beleza maior. Como disse, Yan era perfeito e o plano já se moldava em minha mente.

Yan gostava de aventuras, de mistérios e leva – lo para “A Casa” no fim de semana não foi difícil, a curiosidade faz coisas.

“A Casa” era apenas uma construção antiga e velha sem atrativos, descobri na “minha primeira” vez que havia um comodo escondido ali, que ninguém parecia saber.

Lembro – me do gatinho gritar ensandecido e arranhar desesperadamente, mas consegui as minhas lindas bolinhas de gude verdes – amareladas. Os que vieram a seguir foram mais fáceis, o mundo conspirava a favor.

Ópio… Cianeto… Arsênio… Toxicinas que paralisavam a pessoa e as colocavam para dormir rápido…

Mas com Yan, eu precisava que ele visse, que estivesse vivo antes de tudo.

Decidimos que a visita “A Casa” seria apimentada para afrontar qualquer suposto fantasma e não poderia ser mais perfeito.

Yan foi impecável como sempre, me dominava de maneiras que eu pedia por mais, nossos corpos se enxaixavam muito bem e eu sentiria falta daquilo tudo.

Veio o êxtase e agulha adentrou a carne macia de seu pescoço.  Yan ainda estava dentro de mim quando, com os olhos arregalados, me olhou assustado.

“Durma, meu mestre… Apenas durma!”

O peso de um homem dormindo dobra e arrasta – lo até o comodo e coloca – lo na cama foi quase impossível.

Mas “ela”… “Ela” veio e a força cresceu imediata.

Amarrei – o da melhor forma possível e esperei paciente até que ele acordasse. O odor já não me incomodava e o barulho que eles faziam ao deixar esse mundo, não podia ser ouvido. Dessa vez, era a vez de Yan.

A colher aquecida já estava pronta e o alicate que cortaria a pele ao redor dos olhos, parecia ter mais fome do que “ela”.

– Nina… – ouvi Yan sussurrar, mas ela já o respondia.

– Nina tirou folga por alguns minutos. – ela sorriu e parecíamos um anjo quando sorriamos. Nos olhavamos no espelho admirando a mesma face, com as pequenas orbes na mão, agora limpas e lindas.

Os olhos de Yan ainda brilhavam, vivos… Eu sabia que ele era diferente e agora fariam parte de minha querida coleção.

Encontraram o corpo duas semanas depois, a pressa é inimiga da perfeição… Fui acusada de dez assassinatos, dez lindos pares de olhos exóticos.

Quatro deles ainda pareciam estar vivos, o de Yan estava entre eles mas “ela” já me disse que escolheu um novo olho e que ainda não é dessa vez que vamos ficar aqui, na cela fria.

A moça de cabelos loiros, olhos cor de âmbar e perfume de ambrosia, vai nos deixar sair. Policial Élida, o nome…

Ela tem lindos olhos…

 

 

 

 

FIM?

 

 

 

 

* Letra da música Carnival of the Rust Poets of the Fall

 

Um comentário em “Morada dos Olhos Tristes

Gostou? Comente!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s