Coração de Ébano

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Por: Natasha Morgan

 

As sombras sempre a acolheram num abraço sedoso. Roçavam sua pele com pequenas carícias geladas, aquelas brumas escuras e sedutoras. O frio era bom, envolvia sua alma com gentileza. Era acolhedor. Seco. Intrínseco.

Num abraço, num roçar ocasional, ela sempre se sentira acolhida.

Ou não sentira absolutamente nada.

As sombras a tornaram fria. E o frio era bom.

Ao menos sempre se sentira extremamente confortável.

Scatha a reivindicou como sua filha anos atrás, forçando-a a abraçar as sombras que ela tanto temia e trancafiava dentro de si. Quando as deixou entrar libertou-se por completo. Deixou para trás a garota amedrontada, sentimental e insegura que fora Báirbre e se tornou a mulher de sombras.

Ebony.

Não sentia.

Absorvia.

As sombras se tornaram sua aliada. O frio seu amante eterno. A noite sua mãe majestosa, nos braços de quem sussurrava o nome da Deusa.

Scatha.

Deusa das Sombras, Guerreira indomável. Aquela que semeia e combate o medo. Mentora dos antigos guerreiros.

Em sua alma não havia espaço para sentimentos mais nobres.

Ebony se sentia em casa. Acolhida. Centrada. Austera.

Até aquela tarde de sol pungente.

 

Lugh abençoara o dia com seus raios de sol dourados.

Apesar de amar e se refestelar sob a noite, Ebony enfrentou o calor, a luz brilhante do sol e iniciou sua caminhada pelo bosque. Praga era extremamente agradável em seus campos abertos, exibindo uma beleza bucólica escondida no meio de uma cidade urbana.

Algo impeliu a garota de sair de sua caverna, levando um livro grosso nas mãos e um cantil arcaico com café. Sentou-se na beira de uma árvore sombria e mergulhou na escrita formal, deleitando-se com o enredo daquele livro velho. O cheiro das páginas antigas pinicava seu nariz, mas aquele era um prazer estranho.

O brilho do sol oscilou por alguns segundos e algo atraiu seu olhar para o bosque verdejante.

Ebony nunca acreditou que a magia dos filmes se fizesse real. Mas no instante em que encontrou aqueles olhos castanhos transbordando gentileza, mudou sua concepção estoica.

O rapaz de jaqueta de couro tinha um sorriso encantador.

Sorriso esse que disparou seu coração e agitou as sombras dentro dela.

Com a voz melodiosa e transbordando educação, ele a cumprimentou. E convidou-a a tomar um sorvete.

Incapaz de conter sua reação, os lábios dela se abriram num sorriso contagiante. Algo tão comum numa tarde ensolarada. Algo tão inusitado para os dias sombrios que ela vivia.

Contrariando suas sombras mais frias, Ebony aceitou, seduzida pelo calor.

Uma alma mundana. Uma essência viva em cores que ameaçava dissipar suas sombras. O toque dele dissipava o frio e enchia sua alma de calor, numa promessa ousada de amor.

Ao lado do cavaleiro das Flores – ela assim o apelidou intimamente – ela se sentia de volta no corpo e essência de Báirbre.

E isso a assustava mortalmente.

Pessoas calorosas, gentis e alegres seduzem com promessas de amor.

Aquecem o coração, acolhem e nutrem a alma. Enchem seu ser de alegria e cores, afastam as sombras mais frias. Somente para desaparecer num piscar de olhos, levando tudo o que é leve e feliz com eles.

O amor é uma promessa audaciosa e desleal.

Planta flores coloridas em seu coração e depois as arranca com brusquidão.

Báirbre era apaixonada, viva, transbordava em cores.

Ebony era fria, centrada, sóbria. Dançava com as sombras.

O Cavaleiro das Flores invadiu seu mundo organizado, ofereceu promessas doces e o princípio da dúvida.

Ebony não sabia qual das duas ela era. Báirbre ou Ebony. Cores ou cinza. Luz ou escuridão. Orvalho ou sombras. E a incerteza do que podia ser, a incerteza do que a acolheria a encheu de medo.

O frio que roçava sua pele agora era temeroso, como um sussurro de alerta.

Era bom demais estar em braços calorosos, sentir o sabor de lábios doces e flutuar com o amor que ele lhe oferecia.

Mas Ebony também conhecia o sabor amargo da queda.

Megara a observava das sombras com um sorriso amável nos lábios, mas um alerta cuidadoso nos olhos enigmáticos. A sabedoria da Bruxa de Praga transbordava em pequenos gestos.

Ebony nunca soube se sob aquela carcaça indomável existiu algum dia uma jovem apaixonada. E também jamais ousou perguntar. O coração de uma bruxa é um terreno misterioso. Assim como sua capacidade em ofertar amor.

Como a carta da Lua, a garota se sentia perdida nos dias mais quentes, encontrando conforto nos braços calorosos de um rapaz mundano. Forte o suficiente para tocar seu coração de Ébano. Incerto o suficiente para ameaçar esmaga-lo.

 – O seu amor incerto ameaça fazer ruir o meu mundo. – ela sussurrava em seus braços todas as vezes em que se despediam.

O rapaz sorria, alheio as sombras que ameaçavam devorá-la.

Seus lábios tocaram os dele uma última vez, absorvendo a profusão de alegria, amor e cores. Ebony mergulhou naquela sensação inebriante, sentindo o aroma que sempre ficava no ar após um abraço.

Quando ressurgiu na superfície, clamou pela Deusa feita de Sombras.

Scatha

Ela sussurrou. E pediu a Deusa que mais uma vez congelasse seu coração.

Deixou o Cavaleiro das Flores sob o Salgueiro, no bosque iluminado pelos raios de sol. Não era corajosa o suficiente para amá-lo. O medo da queda lhe aterrorizava o suficiente para lhe impelir ao conforto das sombras frias.

Megara se encontrava em sua poltrona Carmim quando Ebony adentrou a mansão de ossos. O olhar enigmático brilhou em compreensão e o silencio se estendeu ao cair da noite.

Ebony acendeu a magia de seu altar, ofertando uma taça de vinho agridoce.

Com o auxílio do Athame, perfurou o indicador e deixou verter duas gotas de sangue na taça de estanho. Seu sussurro sombrio invocou a Deusa, clamando pelas sombras frias que a acolheram com saudade.

 

Scatha, Deusa das Sombras e da arte de guerrear.

Sob a lua que finda o brilho do céu.

Faça o amor minguar.

Que a frieza restaure o véu.

E em meu coração o amor jamais volte a reinar.

 

Seu cântico preencheu a noite, chegando aos ouvidos da Deusa.

Num gesto teatral, Ebony ensaiou penetrar a lamina fria do Athame em seu peito, ofertando o músculo pulsante que havia ali dentro.

– Para selar a barganha, ofereço-lhe meu coração pela eternidade. – entoou.

As sombras condensaram o ar ao seu redor, roçando a pele leitosa da bruxa.

Em seu coração, preenchido de promessas doces, fez reinar o vazio frio.

De seus olhos escuros verteu uma única lágrima, proveniente de um coração partido. E então ela suspirou, livrando-se.

A frieza a abraçou num gesto saudoso e reconfortante.

E de lábios sedosos ela recebeu um beijo Daquela que Semeia e Combate o Medo.

Um dia aprenderá a não temer.

E então poderá abraçar suas sombras incondicionalmente.

O sussurro frio da Deusa deixou para trás o suave roçar do vento.

Megara se ergueu de sua poltrona, silenciosa e respeitosamente.

Seu olhar recaiu sobre a bruxa, empático.

– Não foi a única a oferecer seu coração em barganha para não sentir. – um sorriso triste lhe cruzou as feições elegantes. – A dor é uma ruína da qual nos mantemos sabiamente afastados.

O silencio se propagou enquanto as sombras dançavam no ar.

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