Giovanni’s – Fim…

giovannis1

Por L. Orleander

Luara urrou de dor ao sentir o ferro frio cortar – lhe a pele. A visão turvou – se e por um instante tudo fico excessivamente claro.

Ian aproximou – se da moça e olhou – a como se a encontrasse pela primeira vez, afastou o emaranhado de cabelo do pescoço pálido, vislumbrou o sinal de um dos anciãos que recolhiam o sangue da moça em um cálice e segurou o ar.

– Minha… – foi a única palavra que ele sussurrou antes de cravar os dentes em Luara. Em um átimo de minutos o corpo acima da mesa de pedra se retorceu como se buscasse os últimos impulsos de força, ou seria de dor?

Na cabeça de Luara a dor latejava, o sangue que antes sentia se esvair, agora parecia correr em profusão, aceleradamente. Martelava em seus ouvidos e a deixava surda para o que ocorria ao seu redor, sentiu – se morrer e reviver no mesmo instante. Estava sendo queimada viva, tendo a pele arrancada de seu corpo. Sentia como se seus olhos fossem banhados por ácido e estivesse ficando cega, seus órgãos pareciam colar – se a pele e a respiração tornou – se difícil.

Ian observava a tudo calado, enquanto Layla bebia o líquido vermelho do cálice e deliciava – se com o sabor como quem bebesse a melhor safra de vinho do mundo.

– Chamamos a nossa presença, o Senhor dos senhores, para que acorrente a este corpo a alma que nosso príncipe almeja. – disse a mulher que acompanhara tudo desde o início.

O som de grilhões se movendo se fez presente no recinto, a claraboia acima da sala abria – se, deixando passar por ela a luz da Lua Cheia, recaindo sobre o corpo ensanguentado da moça, rapidamente os anciãos soltaram os braços e pernas de Luara deixando livre.

O corpo não mais se movia e a órbitas oculares eram de um branco leitoso doentio, Ian esperava, enquanto de mão em mão o sangue de Luara corria, sorvido do cálice.

Como se uma força invisível estranha agisse sobre a moça, o corpo deixou a mesa de pedra flutuando, subindo suavemente, a luz em tons azulados parecia dançar diante de todos os olhares, pousando em seguida, delicadamente, no peito de Luara.

Ian e Layla seguravam o ar na expectativa do que viria a seguir, Soren olhou de soslaio e virou – se de costas afastando – se, lembrou como o fogo fátuo o marcará séculos antes e sabia que dali viria uma dor excruciante, havia um preço a ser pago pela eternidade, dolorido, mas necessário.

O som de ossos quebrando ecoou diante do público esperançoso, pois dali viria a redenção, mas também poderia vir a ruina.

O grito de mil demônios foi escutado como um uivo de dor e as órbitas leitosas pararam para dar lugar á uma iris violeta. O corpo torceu – se sobre si, enquanto Luara murmurava um pedido de socorro, a dor havia chegado ao seu ápice e tudo o que ela pedia em sua mente era pela morte, foi então que se lembrou dos olhos do rapaz. Ian…

Lembrou do tom castanho dos cabelos e do pedido de licença que ele murmurou em seu ouvido antes de morder – lhe o pescoço, ela havia cedido, era como se sempre o tivesse conhecido, confiava nele e a dor sumiu por um instante. Novamente ela partia, deixando apenas diante de seus olhos o semblante tranquilo de Ian.

O corpo de Luara descia suavemente e já não dava mostras dos espasmos de dor, estava estático e frio, Luara parecia dormir.

– Limpem – na! – gritou Layla. – Ian, eu espero realmente que dessa vez, seja a certa, meu irmão.

Ian devolveu a irmã um olhar carinhoso e sorriu.

– Ela é… Eu senti, ela está vindo me buscar.

Luara acordou com mãos passeando rápidas sobre seu corpo, não sentia mais a dor e não via os ferimentos, já não estava presa e só tinha um desejo…

Luara foi levada a presença de um senhor forte e esguio, de sorriso alvo e olhos violeta.

– Minha criança, seja bem vinda. – O sorriso sincero do jovem senhor a fez sentir – se confortada depois de tudo. Depositou sobre sua testa um beijo e pegou – a pela mão, levando – a  até onde estava sentado, ofereceu – lhe um cálice e Luara bebeu, sentiu o gosto do sangue, mas não veio a repulsa, a energia correu por suas veias e a deixou saciada.

– Você pode escolher, criança. Partir pelo mundo ou ficar conosco. Mas carregara consigo a alma de minha família, o nome de minha casta e com ele o meu dom e…

– Eu fico. – respondeu Luara sem pensar ou terminar de ouvir o que Augustus Giovanni tinha a dizer.

– Você carregara o peso da morte entre os dedos, Luara. Tem certeza da sua escolha?

– Ian… – sussurrou ela. – Ele é a minha morte, não tenho mais o que temer. – disse com convicção.

Augustus abraçou a moça e sorriu satisfeito.

– Bem vinda Luara, guardiã das chaves dos portões da Morte.

Layla adentrou o recinto, acompanhada por Soren em trajes de festa,  e sorriu para a moça, apertando – lhe as mãos.

– Para nós é uma grande honra tê – la entre nós, esperamos seu despertar por dias e quase desistimos de ter fé que você conseguiria, mas olha só você. – disse ela olhando a moça trajada em um vestido rodado com rendas e seda vermelha e negra. O diadema colocado sobre sua cabeça estava ali também como na noite em que fora transmutada.

– Vamos? – disse Soren. Layla anuiu com a cabeça

– Senhor meu pai, nos permite?

– Sempre minha querida filha… – respondeu Augustus.

– O senhor não vem?

– Não dessa vez minha pequena, não dessa vez. – disse ele virando – se de costas para os três e olhando demoradamente para uma tapeçaria que reluzia em cores douradas com o brasão da família. Augustus sorriu ao ver um novo ramo dourado desenhar -se magicamente sobre a mesma e entrelaçar – se ao que pertencia a Ian, e dos dois saiam muitos outros aumentando a força da linhagem Giovanni.

Ian estava sentado com o rosto preso entre entediado e pensativo, foi quando ele a viu. Adentrando o grande salão, onde todos dançavam e levantou – sem com prontidão, a música cessou, as pessoas se afastaram, Luara já caminhava na direção daqueles olhos e ignorava tudo ao seu redor, enquanto Ian descia os degraus diante de si, sem acreditar no que via.

As mãos se encaixaram com perfeição e os olhares se encontraram, um azul e um violeta…

– Minha…

– Meu…

Disseram ambos ao mesmo tempo.

E na dança que se seguiu, tocada apenas para eles, o mundo poderia ter acabado. Nunca em uma união houve tanta certeza, Ian já a conhecia como as batidas aceleradas do coração de um humano que corre para não morrer e ser alimento de sua juventude eterna, ele a sentia como parte dele, chamando – o, vivendo sobre sua pele. Luara não quis saber da vida que havia deixado para trás, aprenderia com sua nova família, conheceria a chama que queimava dentro de si quando encontrou ele novamente e seria nas manchetes do dia seguinte, um rosto estampado como desaparecido, da mesma forma que tantos outros também eram, talvez com a mesma finalidade. Ou com finalidades não tão puras e castas, eram assim com os Nosferati, não? Mas isso é uma outra história, guardada nos Contos Vampirescos de Outrora…

 

FIM?

 

 

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