O Canto do Oceano {1}

O Canto do Oceano.jpg

Do Firmamento ao Oceano

Jamaica, Port Royal, 1668

O patíbulo estava armado e os laços da forca iam de um lado ao outro em um balanço débil, causado pela brisa primaveril. A população se aglomerava ao redor à espera dos prisioneiros; quase todos acusados de pirataria. Enfileirados, presos pelos grilhões, eles caminhavam em direção à morte certa. Era difícil definir todos os sentimentos que passavam pelos rostos das pessoas que observavam; semblantes de raiva e contentamento, outros de nojo, e apenas alguns de pena.

Eram pessoas de todas as classes e de todas as idades. Enquanto algumas mulheres gritavam por justiça, crianças brincavam com suas espadas de madeira em uma batalha imaginária onde o bem, em inocência, sempre vencia o mal.

Da janela de seu quarto, Anna de La Cruz tinha uma visão considerada privilegiada da cena. Não tinha mais nada para fazer naquele lugar, entretanto precisava aguardar o retorno de seu tio da última negociação de especiarias. Não aguentava mais Port Royal, cheio de pessoas fedorentas e de péssima educação. Sem contar a ralé, pensou ela, concordando com a fama da Sodoma do Novo Mundo.

— Que o diabo os leve — murmurou, segurando seu crucifixo com força. — A forca será o menor dos problemas para eles.

— Senhorita, não devia dizer tais palavras. — Anna se virou na direção de sua criada, encarando-a com frieza.

— E quem é você para me repreender? — A jovem se encolheu e murmurou um fraco “perdoe-me”, despertando a compaixão da outra no mesmo instante. — Lamento, Emelina, não desejava ser descortês, mas a proximidade de nossa viagem apenas aumenta a minha aflição.

— Não tem com o que se preocupar, senhorita. Seu pai a receberá com festa em Maracaibo.

— Não só ele, pelo visto. — Anna suspirou, voltando seu olhar aos prisioneiros perfilados.

Seu amado pai decidira por ela que havia chegado o momento de seu casamento, com alguém de mesma posição social, é claro. Felizmente a beleza de Anna caíra nas graças de um belo Conde, que a cortejava com ardor. Era um bom homem, com boas intenções, então por que sinto que não devo me casar com ele?, pensava quase todos dias. A ideia de conforto e estabilidade lhe pareciam motivos suficientes para refrear, mesmo que por momentos breves, suas dúvidas. Mas e sua liberdade?

Naquele mesmo dia estaria navegando rumo a um novo futuro. Deixaria Port Royal junto com seu tio, suas primas e Emelina. O olhar vagou em direção ao firmamento, caindo sobre a imensidão azul. Fitou a fina linha onde o céu e o oceano se tocavam, mas nunca se misturavam. De algum lugar longínquo uma música evocou memórias de fatos nunca ocorridos. Um chamado invisível de um reino perdido. Era hipnótico, primal. Algo que havia ultrapassado eras, camuflado por lendas e misticismo.

Anna estava tão perdida que apenas os gritos do povo tiraram sua atenção. Os piratas balançavam de um lado ao outro, sem vida; os laços em volta dos pescoços magros e sujos. Um calafrio percorreu a espinha da dama, que desviou o olhar da cena decadente. Estaria voltando em breve para casa. Para longe daquelas cenas deprimentes. Era nisso que acreditava, mas o futuro é tão incerto quanto as marés que estava prestes a navegar.

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